Notícia

Mulher e Direitos Humanos

Secretaria da Mulher e dos Direitos Humanos do Estado de Alagoas
Quarta, 07 Novembro 2018 21:05
MÊS DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Semudh apoia documentário sobre Direitos Humanos e Consciência Negra premiado em festival internacional de cinema

Tese de doutorado na UFAL, o filme À Espera, documentário sobre o rito de iniciação “Unyago” na educação da menina mulher de Moçambique mostra o impacto de casamentos prematuros com meninas entre 9 e 12 anos, e está concorrendo no Circuito de Penedo de Cinema, de 26 de novembro a 02 de dezembro

Cineasta moçambicana Sônia André foi vencedora do prêmio internacional EntreTodos com o filme "À Espera" Cineasta moçambicana Sônia André foi vencedora do prêmio internacional EntreTodos com o filme "À Espera" Foto: Letícia Sobreira
Texto de Ana Cristina

O filme À Espera, documentário sobre o rito de iniciação “Unyago” na Educação da Menina Mulher de Moçambique, foi vencedor no EntreTodos - Festival Internacional de Cinema, na categoria “Trajetória”, como o melhor filme. Tese de doutorado na UFAL – Universidade Federal de Alagoas, a produção contou com o apoio do Governo do Estado, por meio da Secretaria da Mulher e dos Direitos Humanos Semudh. O evento internacional aconteceu em São Paulo, de 15 a 20 de setembro. O documentário é um dos concorrentes no Circuito de Penedo de Cinema, o qual acontecerá de 26 de novembro a 02 de dezembro.

À Espera é uma produção da cineasta Sônia André, moçambicana que mora em Maceió por meio de intercâmbio educacional entre a América Latina, Caribe e África. Tem licenciatura e pós-graduação em Música, é atriz com mestrado e doutoranda em Educação pela UFAL, orientada por Walter Matias Lima, pós-doutorado em Educação pela Université Rennes II, na França.

Casamentos prematuros

Sonia André explica que o filme, que tem 22 minutos de duração, é resultado do desejo de querer lutar pelas meninas do país dela. “Tenho uma filha pequena e isso me sensibiliza ainda mais. Moçambique está em 10º lugar no mundo na frequência de casamentos prematuros. É uma negação da infância e dos direitos básicos da criança, sobretudo o direito à vida, o direito à educação, pois quando uma menina de 9 ou 10 anos engravida você está negando a ela a própria vida”. Ela ressalta que essas meninas não têm corpo preparado para suportar a atividade sexual por questões fisiológicas, psicológicas ou emocionais. “Eu falo por todos os países que têm essa prática”, lamenta a cineasta.

Segundo a documentarista, o Brasil está em quarto lugar no mundo em casamentos prematuros. “Devemos lutar por essas meninas para que tenham direitos básicos que fazem parte dos direitos humanos e da liberdade delas para serem o que quiserem ser”. Esses direitos, informa, estão garantidos na Constituição do Brasil e na de Moçambique, além de estarem em instrumentos de tratados internacionais.

Um grito à liberdade

O documentário é um grito, uma forma de contribuir para mudar a vida dessas meninas. Uma linguagem simples para que todos possam compreender essa dura realidade e suas conseqüências.  “A arte tem esse poder, de falar todas as línguas, pois atinge todos os credos, cor, sexo, religião, e vai até onde outros meios de comunicação não chegam. Isso é o que me move”, declara.

Premiação

Na premiação no Festival Internacional de Cinema, Sônia André recebeu a estatueta e um valor de cinco mil reais, recurso que vai usar em prol das garotas que aparecem no documentário em Moçambique.

Semelhanças com o Brasil

Sonia André reforça que a realidade da menina moçambicana mostrada no documentário é muito semelhante à brasileira. Os dois países apresentam esse mesmo traço cultural e histórico de impedir a liberdade de meninas ao obrigá-las a casar ainda crianças. Os casamentos prematuros colocam o Brasil e Moçambique na rota do atraso e do subdesenvolvimento, além de ser a afirmação do machismo e do total desrespeito aos direitos humanos.  

Negro e o preconceito no Brasil

“Em Moçambique, nós sabemos que somos negros. Aqui no Brasil, nós sentimos que somos negros e de uma forma terrível”, diz à cineasta que conta ser vítima diariamente do preconceito contra os negros aqui. “Tive que ir à justiça contra o condomínio onde moro aqui em Maceió, pois minha filha foi impedida de brincar no playground pelo fato de ser negra, além de sofrer violência física de outras crianças e adultos que mandavam que voltasse para a África e jogavam areia no rosto dela.” 

Sonia fala com lágrimas nos olhos das terríveis experiências em Maceió envolvendo sua filha ainda bebê. Diz que tentou dialogar, mas nada resolveu. Foi à justiça como último recurso para ser respeitada e ver sua filha crescer com liberdade e dignidade.  Mas sente-se prisioneira dentro da própria casa e vive com medo da violência chegar novamente perto da única filha ainda pequena.